Monitoramento Nutricional de Culturas via Sensoriamento Remoto
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19 fevereiro, 2026

Monitoramento Nutricional de Culturas via Sensoriamento Remoto

Como é feita o diagnóstico nutricional de lavouras agrícolas através da utilização de satélites e drones?

Monitoramento Nutricional de Culturas via Sensoriamento Remoto: Dinâmica entre NDVI e NDRE

 A Nova Era da Agronomia de Precisão

O monitoramento eficiente da saúde das plantas consolidou-se como o elemento central da agricultura moderna, especialmente no contexto da agricultura de precisão (AP). A necessidade de otimizar o uso de insumos, reduzir custos operacionais e minimizar os impactos ambientais impulsionou a adoção de tecnologias de monitoramento remoto. Estas ferramentas, baseadas em imagens obtidas por satélites ou drones, permitem observar e quantificar variáveis fisiológicas e nutricionais das plantas com uma repetição temporal e precisão espacial que os métodos tradicionais de amostragem aleatória não conseguem alcançar.

A grande vantagem desta revolução tecnológica reside na capacidade de transformar dados espectrais em decisões agronômicas fundamentadas. Ao invés de tratar o talhão como uma unidade homogênea, o sensoriamento remoto revela a variabilidade espacial intrínseca da lavoura, permitindo intervenções precisas e eficientes. 

 

 

  1. Sensoriamento Remoto

O sensoriamento remoto agrícola baseia-se na interação da radiação eletromagnética com a vegetação. Para compreender como identificamos deficiências nutricionais, é preciso analisar a "assinatura espectral" das plantas. As folhas interagem com a luz de três formas principais: absorção, transmissão e reflexão.

 

O Espectro Visível (RGB) e a Clorofila

No espectro visível (400 a 700 nm), o comportamento da planta é dominado pelos pigmentos fotossintéticos, principalmente a clorofila a e b. Estes pigmentos absorvem intensamente a luz nas faixas do azul e do vermelho para converter energia luminosa em energia química. A luz verde é menos absorvida e, portanto, mais refletida, razão pela qual percebemos as plantas como verdes. Quando uma planta sofre uma deficiência nutricional (especialmente de Nitrogênio, Magnésio ou Enxofre), a produção de clorofila cai, aumentando a refletância no vermelho e alterando a cor visual, o que na prática chamamos de clorose.

 

O Infravermelho Próximo (NIR) e a Estrutura Celular

Na faixa do infravermelho próximo (700 a 1300 nm), a interação não ocorre com os pigmentos, mas com a estrutura física da folha. O mesofilo foliar (tecido interno) possui cavidades de ar que espalham e refletem fortemente a radiação NIR. Plantas saudáveis, com células túrgidas e estruturas bem formadas, refletem muito NIR. Quando há estresse hídrico ou nutricional severo que afeta a estrutura celular, essa refletância diminui drasticamente.

 

2. Índices de Vegetação: NDVI e o Desafio da Saturação

O índice mais difundido mundialmente é o NDVI (Normalized Difference Vegetation Index). Sua formulação matemática é:

 

Este índice varia de -1 a +1. Em termos práticos, solo nu apresenta valores próximos a 0,1, enquanto vegetação densa e vigorosa atinge valores entre 0,8 e 0,9. O NDVI é um excelente indicador de biomassa e vigor geral, funcionando como um "termômetro" da lavoura.

Entretanto, o NDVI possui uma limitação técnica crítica conhecida como efeito de saturação. À medida que a cultura se desenvolve e o Índice de Área Foliar (IAF) aumenta, o dossel torna-se fechado. Nesse ponto, a luz vermelha é quase totalmente absorvida pelas camadas superiores de folhas. Consequentemente, o NDVI atinge um platô (geralmente acima de 0,85) e para de responder a incrementos adicionais de biomassa ou de conteúdo de nitrogênio. Para o manejo nutricional em estádios fenológicos avançados, o NDVI torna-se "cego" às variações internas da planta.

 

3. O Avanço para o NDRE e a Banda Red Edge

Para superar a saturação do NDVI, a ciência do sensoriamento remoto introduziu o uso da banda Red Edge. Esta região situa-se na transição rápida entre a absorção do vermelho e a reflexão do infravermelho (aproximadamente entre 670 nm e 750 nm).

O NDRE (Normalized Difference Red Edge Index) utiliza esta banda em seu cálculo:

 

 

Por que o NDRE é superior para Nutrição?

Diferente da luz vermelha, que é absorvida quase inteiramente pela superfície das folhas, a luz na faixa do Red Edge possui maior capacidade de penetração no dossel vegetal. Ela consegue atravessar as primeiras camadas de folhas e interagir com as folhas baixeiras. Como o Nitrogênio é um elemento móvel na planta, as deficiências costumam aparecer primeiro nas folhas mais velhas. O NDRE consegue detectar essas nuances de clorofila no interior da planta mesmo quando o NDVI já saturou. Portanto, para recomendações de adubação nitrogenada em cobertura (como no milho ou trigo), o NDRE é a ferramenta de escolha.

 

4. Comparação de Plataformas: Satélites vs. Drones

A escolha entre satélites e drones (VANTs) depende dos objetivos do monitoramento e da escala da operação.

 

Monitoramento via Satélite

Plataformas como o Sentinel-2 (da Agência Espacial Europeia) oferecem dados gratuitos com resolução de 10 metros por pixel e revisitas a cada 5 dias.

  • Vantagens: Baixo custo, capacidade de analisar séries históricas de vários anos e cobertura de grandes extensões territoriais.
  • Limitações: Dependência total de condições atmosféricas. A presença de nuvens pode impedir a captura de dados em momentos críticos do ciclo da cultura. Além disso, a resolução de 10m pode ser insuficiente para identificar problemas muito localizados.

 

Monitoramento via Drones (VANTs)

Os drones equipados com sensores multiespectrais representam o ápice da resolução espacial.

  • Vantagens: Resolução de centímetros por pixel, permitindo ver plantas individuais. O voo pode ser feito abaixo das nuvens, garantindo o dado no dia exato necessário.
  • Limitações: Custo operacional elevado, necessidade de processamento complexo de imagens (ortomosaico) e limitações de autonomia de voo para áreas muito extensas.

 

CaracterísticaSatélitesDrones (VANT)
Resolução Espacial10m - 30m2cm - 10cm
Resolução TemporalFixa (Calendário)Sob demanda
EscalaRegional / FazendaTalhão / Planta
Obstáculo PrincipalNuvensCusto de Operação

 

5. Processamento, Análise e Aplicação em Taxa Variável (VRT)

A obtenção da imagem é apenas o primeiro passo. O dado bruto passa por correções radiométricas para eliminar interferências atmosféricas e, então, é processado em softwares de geoprocessamento. O resultado é um Mapa Temático de Índices de Vegetação.

A aplicação prática mais valiosa desses mapas é a Aplicação em Taxa Variável (VRT). Com base nos índices de NDRE, é possível criar mapas de prescrição. Onde o índice está baixo (indicando falta de N), a máquina aplicadora aumenta a dose; onde o índice está alto (planta saturada), a dose é reduzida. Isso resulta em:

  1. Economia de Insumos: Não se gasta fertilizante onde a planta não consegue absorver.
  2. Uniformidade da Lavoura: Redução da variabilidade, facilitando a colheita.
  3. Sustentabilidade: Menor lixiviação de nitratos para o lençol freático.
  4. Evita acidificação: Os nutrientes não são ofertados em grandes quantidades, fazendo com que a planta absorva tudo o que lhe é dado, evitando a lixiviação de bases (Ca, Mg e K)

 

6. Integração com Dados de Campo: O "Ground Truth"

É fundamental ressaltar que imagens de NDVI ou NDRE não substituem o agrônomo no campo. Elas funcionam como diagnósticos de imagem, semelhantes a um raio-X. O índice aponta que algo está errado, mas o diagnóstico definitivo — se é deficiência de Nitrogênio, estresse hídrico, compactação de solo ou ataque de pragas — exige a validação em campo, conhecida como "Ground Truth" (Verdade de Campo). A integração desses índices com sensores de solo e estações meteorológicas cria um ecossistema de dados robusto para a tomada de decisão.

 

Conclusão

A utilização de drones e satélites para identificação de deficiências nutricionais transformou a agronomia de uma ciência observacional para uma ciência de dados. Embora as barreiras de custo e a necessidade de mão de obra especializada ainda limitem a adoção por pequenos produtores, a tendência é de democratização via serviços de computação em nuvem e automação por Inteligência Artificial.

Em suma, o NDVI permanece como a porta de entrada para o monitoramento de biomassa, enquanto o NDRE estabelece-se como a ferramenta de precisão para o manejo nutricional avançado. A combinação inteligente dessas tecnologias permite ao produtor rural não apenas ver a sua fazenda de cima, mas compreendê-la planta por planta, garantindo eficiência e sustentabilidade no campo.

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