Espécies Reativas de Oxigênio
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20 outubro, 2025

Espécies Reativas de Oxigênio

Descubra o que são as espécies reativas de oxigênio, de onde elas surgem e como podem ser aliadas ou vilãs da produtividade!

As espécies reativas de oxigênio (EROs) são moléculas derivadas do oxigênio que reagem com muita facilidade dentro das células. As mais conhecidas são o superóxido, o peróxido de hidrogênio, o radical hidroxila e o oxigênio singleto. Toda planta as produz naturalmente, porque elas aparecem como subprodutos da fotossíntese e da respiração. Em condições normais, existe um equilíbrio entre o que é gerado e o que é “limpo” pelo sistema de defesa. Quando esse equilíbrio se quebra — por seca, excesso de luz, salinidade, frio ou calor, encharcamento, ataque de pragas e doenças, ou por desequilíbrios de nutrientes — as EROs se acumulam e passam de aliadas à problema. Vale lembrar: elas não são apenas um mal necessário. Em doses baixas, funcionam como sinais que ajudam a planta a crescer, se organizar e se defender. O desafio do manejo é manter esse sinal útil sob controle, evitando que se transforme em estresse oxidativo.

A formação de EROs acontece nos principais motores da célula. Nas folhas, quando há muita luz e pouco CO₂, a cadeia de transporte de elétrons da fotossíntese fica sobrecarregada e uma parte dessa energia “vaza” para o oxigênio, gerando superóxido (O₂·⁻) e, depois, peróxido de hidrogênio (H₂O₂). Em momentos de excesso de energia nos pigmentos, surge oxigênio singleto (¹O₂). Nas mitocôndrias, algo parecido ocorre quando a respiração trabalha em condições que favorecem perdas de elétrons. Nos peroxissomos, organelas ligadas a processos de reciclagem dentro da célula, forma‑se bastante peróxido de hidrogênio durante a fotorrespiração. A própria parede celular e a membrana plasmática também podem produzir EROs, especialmente quando a planta aciona respostas de alerta. Em excesso e na presença de ferro ou cobre livres, o peróxido se transforma em radical hidroxila (OH-), extremamente agressivo. É por isso que, em situações de estresse, o risco de dano se multiplica.

Os prejuízos aparecem porque as EROs oxidam estruturas chave: atacam a gordura das membranas, deixando‑as mais “furadas” e menos flexíveis; modificam proteínas e enzimas, tirando‑lhes a forma e a função; e atingem o material genético. Na prática, a fotossíntese perde eficiência, a planta aquece mais, fecha mal os estômatos, sofre foto inibição, cresce menos e antecipa a senescência. Em campo, isso se traduz em folhas com bordas amarronzadas, manchas cloróticas que avançam, aspecto “queimado” após ondas de calor ou ventos secos, abortamento de flores e pior enchimento de grãos e frutos. Mesmo quando o dano não é visível de imediato, a produtividade pode cair por semanas por causa da redução silenciosa da taxa fotossintética. Por isso, reduzir a chance de acúmulo de EROs e aumentar a capacidade da planta de neutralizá‑las é parte central do manejo moderno de estresses.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer o lado bom dessas moléculas. A planta se vale de pequenas elevações de EROs como um sistema de “interfone interno”. Um aumento controlado de peróxido de hidrogênio atravessa a membrana, aciona a entrada de cálcio e liga uma sequência de sinais que chegam ao núcleo, onde genes de defesa e de reparo são ativados. Esse mesmo sinal conversa com hormônios como o ácido abscísico (ABA), muito importante para o abre‑e‑fecha dos estômatos, o ácido salicílico, os jasmonatos e o etileno, ajustando respostas a seca, calor, ferimentos e patógenos. 

Há ainda funções de desenvolvimento: picos localizados de EROs ajudam a formar pelos radiculares, a guiar o crescimento do tubo polínico e a diferenciar vasos do xilema. E quando um estresse aparece num ponto da folha, uma “onda” coordenada de EROs e cálcio pode correr pelo tecido e preparar outras áreas para reagirem mais rápido. Em resumo: sem EROs não há ajuste fino; com EROs demais, o sistema sai do prumo.

Para manter-se na faixa útil, as plantas dispõem de uma rede antioxidante muito bem organizada. De um lado, estão as enzimas que transformam moléculas mais reativas em formas menos perigosas. A primeira linha converte superóxido em peróxido; depois, outras enzimas removem o peróxido, quebrando‑o em água e oxigênio. De outro lado, entram os antioxidantes, como compostos semelhantes à vitamina C e à glutationa, além de carotenoides, tocoferóis, flavonoides e fenóis, que capturam radicais e ajudam a dissipar energia extra como calor seguro. Essa rede funciona em diferentes compartimentos da célula e precisa ser continuamente reabastecida com energia e matéria‑prima. É aí que a nutrição mineral faz diferença: ela fornece cofatores metálicos para as enzimas, enxofre para formar glutationa, nitrogênio para construir proteínas e assim por diante. Sem esse apoio, a defesa antioxidante perde fôlego no momento em que mais se precisa dela.

Pensando em manejo, a adubação deixa de ser apenas “quantas sacas por hectare a cultura extrai e exporta” e passa a ser também “quanto risco oxidativo conseguimos tirar do caminho”. Uma nutrição equilibrada reduz a geração de EROs, porque melhora o encaixe entre energia captada e CO₂ assimilado, e, ao mesmo tempo, amplia a capacidade de limpeza, porque garante que as enzimas antioxidantes trabalhem com seus cofatores e que os compostos redutores sejam repostos. 

Micronutrientes como manganês, cobre, zinco e ferro são peças obrigatórias no encaixe das enzimas de defesa. Cálcio e boro reforçam paredes e membranas, diminuindo vazamentos e a propagação de danos; silício, em várias espécies, ajuda a modular respostas a seca, sal e ataque de patógenos.

Entre os macronutrientes, o magnésio merece destaque. Ele é o átomo central da clorofila, portanto influencia diretamente quanto da luz a planta transforma em energia útil. Também participa da ativação da Rubisco e da formação de Mg‑ATP, o “combustível” das bombas e transportadores celulares. Concentrações adequadas de magnésio fazem com que a planta transporte açúcares das folhas com mais eficiência e evita a sobrecarga da cadeia de elétrons — uma das faíscas para gerar EROs. Por isso, folhas bem supridas em Mg costumam manter melhor a cor, a taxa fotossintética e a estabilidade das membranas, mesmo em dias duros de radiação alta ou frio. A deficiência, por sua vez, aparece com a clássica clorose internerval nas folhas mais velhas e com maior sensibilidade a “queimaduras” e desidratação.

Na prática, vale construir o teor de Mg no perfil com calcário dolomítico e recorrer a fontes mais solúveis, como os óxidos quando se busca resposta rápida e alta concentração. Produtos que combinam Ca, Mg, K e S podem ser úteis em estratégias integradas. Atenção aos antagonismos: excesso de potássio, amônio ou cálcio pode atrapalhar a absorção de Mg; por isso, o ajuste de doses e parcelamentos com base em análise de solo e folha e faz-se necessário. 

O potássio, por sua vez, é o maestro do balanço hídrico e do ritmo estomático. Ele entra e sai das células‑guarda, controlando a abertura e o fechamento dos estômatos, processo que conversa diretamente com o sinal de peróxido e com o ABA. Quando o K está em dia, a planta regula melhor a perda de água, capta CO₂ com mais eficiência e diminui os momentos de descompasso entre luz captada e carbono assimilado — exatamente os momentos em que as EROs “sobem a cabeça”. Além disso, o potássio ativa inúmeras enzimas do metabolismo, melhora a eficiência do uso da luz e do nitrogênio e está associado a maior atividade das enzimas antioxidantes e a estoques mais estáveis de antioxidantes não enzimáticos. 

Por outro lado, a falta de potássio traz clorose e necrose nas bordas, estômatos fora de compasso, folhas mais quentes e mais peróxido acumulado. É necessário cuidar a fonte da adubação potássica, a época e sempre que aumentar K em cobertura, confira o magnésio para não induzir deficiência.

Colocando tudo em perspectiva, conviver bem com EROs é fazer a balança pender para o lado da organização e da defesa vegetal, e não para o lado do dano. Isso começa por uma base de solo corrigida e fértil, segue por um plano nutricional que encaixa o magnésio para manter a fotossíntese equilibrado e o potássio para afinar a hidráulica foliar e o sistema antioxidante, e inclui o abastecimento consistente de enxofre, nitrogênio e micronutrientes metálicos. Em suma, as EROs fazem parte do dia a dia da planta. São o modo que planta conversa consigo mesma para ajustar crescimento e defesa, mas viram problema quando o ambiente e o manejo empurram a produção além da capacidade de limpeza. 

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